Entrevista a Meik Wiking, autor de “Hygge: o segredo dinamarquês para ser feliz”

Passámos décadas a procurar a felicidade nos sítios errados, sem saber que, afinal, morava já ao virar da esquina. Adotar o Hygge não exige que se gaste dinheiro, mas que se dê tempo para coisas simples como beber um chá em frente à lareira ou jantar com amigos.

A fórmula para algo tão simples parece ter sido descoberta por Meik Wiking, que lançou o livro “Hygge”: O Segredo Dinamarquês Para Ser Feliz”, sucesso já traduzido em 25 línguas, incluindo o português. Wiking, presidente do Happiness Research Institute, mostra, através de pequenos e perfeitamente praticáveis truques, a facilidade com que se pode conquistar a felicidade. “Tudo no Hygge é fácil, exceto, talvez, a sua pronunciação… e explicá-lo” , adiantou o perito no estudo da felicidade de origem dinamarquesa. Ainda assim, pedimos-lhe que explicasse o conceito.

Há quanto tempo é que esta filosofia é praticada na Dinamarca?
O Hygge está presente na nossa cultura há mais de 200 anos. O termo — que é nome, verbo e adjetivo — está enraizado na língua e cultura dinamarquesa há séculos. Não é, de forma alguma, uma tendência — como muita gente questiona —, mas a forma de como vivemos a nossa vida.

É um conceito que surgiu como forma de enfrentar o clima escuro e cinzento típico dos países nórdicos?
Julgo que talvez tenha alguma coisa a ver. Em pleno inverno, o Hygge funciona quase como uma estratégia de sobrevivência. Uma forma de tirar o melhor partido dos dias escuros, frios e feios, que nos forçam a refugiarmo-nos no interior. No entanto, os ingredientes base desta filosofia, como a indulgência, a união, o relaxamento e o conforto, vivem durante o ano todo.

Sendo uma filosofia tão antiga — e bem sucedida, já que os dinamarqueses são considerados o povo mais feliz da Europa — por que é que o resto do mundo só começou agora a ouvir falar do Hygge?
Primeiro, acho que tem havido, recentemente, um maior interesse pela Escandinávia — resultado de algumas séries televisivas dinamarquesas e suecas que surgiram e provocaram uma curiosidade cultural em torno deste povo. Depois, e principalmente, porque as pessoas começaram a questionar-se acerca da forma de como estão a (sobre)viver.

Andámos a procurar a felicidade nos sítios errados?
Passámos décadas pendurados no conceito do american way of life, que nos vendeu a fórmula do sucesso enquanto base para a felicidade. Vivemos fascinados pelo “ter” e esquecemo-nos do “estar” . O dinheiro importa, é certo, mas de um ponto de vista mais abrangente não são 50€ extra que, numa base diária, vão alterar o conjunto de emoções que sentimos. Se tivermos um conjunto de emoções e experiências boas e positivas diárias, a longo prazo isso acabará por resultar em altos níveis de satisfação.

Quando e por que é que decidiu estudar essa coisa abstrata que é a felicidade?
Parece um bocado louco, eu sei (risos). Na verdade, a decisão resultou de duas situações que aconteceram a determinada altura da minha vida. Por um lado, em 2012, comecei a aperceber-me de como o tema da felicidade começava a integrar os assuntos da economia mundial – as Nações Unidas desataram a apelar aos povos que se focassem na qualidade de vida, governos de países passaram a medir os índices de felicidade bruta, além do usual PIB. Então pensei: “Há tanta coisa a acontecer no mundo em torno da felicidade, por que não faço algo em relação a isto?”. A segunda razão foi triste. Tinha um grande amigo que adoeceu repentinamente, acabando por morrer aos 49 anos. Na altura eu tinha 33, 34 anos, e pensei: “Ok, se só me restassem 15 ou 16 anos de vida, desejaria passá-los a trabalhar em algo que me traz segurança, mas pela qual não sinto paixão?” Dois meses depois despedi-me e dei início a esta louca aventura de estudar a felicidade. Acabou por ser a melhor decisão da minha vida.

Diz-se que não existe felicidade, mas apenas momentos felizes. Concorda com isto?
Julgo que é possível ter-se os dois. Precisamos, antes de mais, de dar um passo atrás e sermos capazes de conseguir olhar a nossa vida de fora, colocando as questões: estou satisfeito com a minha vida? Que tipo de emoções sinto numa base diária? Mais positivas ou negativas? É claro que, se tiver um quotidiano com uma grande quantidade de emoções boas, ainda que tenha uma má manhã em que me sinto triste e deprimido, posso considerar que tenho uma boa vida.

Por norma, uma boa vida está associada a um trabalho estável, uma relação feliz, família, amigos. O Hygge diz-nos que estas variantes não são necessárias para se ser plenamente feliz.
É complexo: geneticamente nascemos mais ou menos predispostos para sentir felicidade — tal como as doenças mentais, existe aqui um elemento genético muito forte. Depois, há as circunstâncias: o país em que se vive, as regalias com a segurança social, o sistema de saúde… Todas estas coisas contam. É então que entra a tal perspetiva que cada ser tem relativamente à sua vida. Se não podemos alterar a parte genética, o mesmo não acontece em relação às circunstâncias, assim como a forma como lidamos com elas. É nesta categoria comportamental que surge o Hygge.

Vamos então às pequenas coisas boas da vida que enumera no seu livro. Como encontramos felicidade na iluminação das nossas casas, por exemplo?
A luz é muito importante na formação de uma atmosfera e o Hygge prende-se essencialmente com a criação de uma boa atmosfera. Aliás, é também apelidado de “arte de criar uma boa atmosfera”. Nós, os dinamarqueses, dedicamos e investimos muito tempo no Hygge das nossas casas. Por exemplo, a luz laranja e quente torna imediatamente o espaço mais acolhedor.

No livro elege a cor preta como tom de vestuário. Porquê a escuridão do negro, sendo o vosso povo tão obcecado pela luz e tons acolhedores?
Nalgumas culturas o preto é catalogado como sendo uma cor depressiva, e mesmo nós usamos preto num funeral… Mas é também uma cor fácil e é essa simplicidade que almejamos com o Hygge. Existe também a questão do clima: chove e neva muito na Dinamarca e esta é uma cor que se mantém limpa durante muito tempo.

As pessoas são muito importantes na filosofia Hygge…
Esse tem sido um tema de discussão recorrente entre mim e os meus colegas: se sozinhos podemos ou não vivenciar esta filosofia… Somos cinco e há um elemento que considera ser completamente impossível. Mas a maioria acha que sim: estar no sossego do lar num dia de chuva, ler um livro, beber um copo de vinho… Tudo isto é extremamente hygge. As pessoas são importantes, sim, mas não fulcrais.

Como seria um jantar em casa para amigos cheio de Hygge?
Barato. O Hygge existe para ser acessível a toda a gente, não é uma coisa de classes. Por exemplo, se um grupo de amigos se dirige a um restaurante e este é demasiado caro, pode-se dizer: “Não devíamos antes encontrar um local mais Hygge?” Portanto não incluiria ostras e champanhe, procurava antes algo rústico. Depois há a preparação: beber um copo de vinho enquanto se orienta a refeição, recostar-se no sofá durante cinco minutos, dividir tarefas com amigos… A pressa não deverá fazer parte de um jantar Hygge, nem a preocupação.

É possível transformar o local de trabalho — por norma um sítio frio e impessoal — num espaço Hygge?
Sim, tornando-o mais acolhedor. Acrescentando elementos que também existam numa sala de estar. No nosso escritório, no Happiness Research Institute, temos sofás, velas, arte nas paredes e um piano no centro da sala. É importante que os empregados tenham gosto em ir para o local de trabalho.

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